terça-feira, 30 de julho de 2013

potências de dois


: (2013) é uma miniatura acusmática especialmente composta para o álbum NMEaniversário2@bandcamp, que comemora o segundo ano de atividades do NME, com 22 peças de aproximadamente 2 minutos cada, compostas por 25 compositores inspiradas livremente no número 2.
: revisita retorno em linha reta (2012) um ano mais tarde, tomando-a como seu material sonoro de base. A peça anterior como um todo é submetida a diversas transformações que têm o número 2 como elemento comum. São realizadas oito compressões temporais, que correspondem às potências do número dois com expoentes de 0 a 7 (o que gera durações de 1 a 128 segundos). Alguns dos materiais obtidos têm então alguns aspectos modulados por osciladores com frequências de 2, 22 e 222 Hz, afastando-os ainda mais da sonoridade original. A partir daí inicia-se um processo de corte, montagem e mixagem que esculpe sonoramente a forma final da peça. Curiosamente, para acentuar ainda mais a inspiração numérica da peça, o processo todo foi realizado em apenas dois dias! Divirta-se:

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

pássaros artificias e o ritmo do cotidiano

Em seus últimos trabalhos, o sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991) busca compreender a vida nas cidades a partir de um aspecto bastante peculiar: o ritmo [1]. A seus olhos e ouvidos, há na vida cotidiana uma infinidade de relações entre ritmos cíclicos e lineares, repetitivos e diferentes, mecânicos e orgânicos, etc. Um dos capítulos narra o desenrolar rítmico do cotidiano testemunhado da janela de seu apartamento, desvelando poesia e drama nas tensões e desencontros entre trabalhadores, estudantes, turistas, automóveis e semáforos - que se mantêm fiéis à mecânica de seus ritmos madrugada adentro, regulando em vão um tráfego que já não circula mais.

Foram reflexões em torno destas ideias que me motivaram a tomar uma gravação de 24 horas de sons que chegam até minha janela como material de base para a minha peça acusmática retorno em linha reta (2012), composta para o álbum NMEaniversário#1. Interessava-me exatamente a tensão entre a experiência ao mesmo tempo cíclica e linear que temos do tempo. Por mais que um dia tenha sempre 24 horas e um ano, 365 dias (ás vezes, 366), sua experiência relativa parece alterar-se constantemente em relação às unidades vividas. O segundo ano de vida dobra a existência em relação ao primeiro, já o terceiro amplia-a apenas em uma vez e meia, e assim por diante. Era mais ou menos assim que na adolescência eu tentava explicar a sensação de que o tempo de hoje sempre passa mais rápido que o de uma época anterior. Nesta peça, exploro as transformações sensíveis produzidas por alterações na velocidade de vivência tempo. Nos 365 segundos que dura a peça, invento um ano às avessas, no qual o dia passa até 365 vezes mais rápido. 





Qualidades insuspeitas se revelaram no processo. Uma das mais intrigantes foi a nítida imagem sonora de uma floresta apinhada de pássaros que obtive ao acelerar cerca de 120 vezes o material original. Por seu realismo falso, acabei utilizando este material como seção inicial de um outro trabalho, cujo ponto de partida era exatamente o som de pássaros: das trevas, sabiá (2012). Embora possa ser ouvida como tal, não se trata de uma composição acusmática propriamente dita, mas antes o registro ao vivo de uma improvisação [2] que realizei no concerto NMEpássaro, no 29 de julho de 2012 no Parque da Água Branca em São Paulo.



[1] LEFÈBVRE, Henri. Rhytmanalysis: Space, Time and Everyday Life. Continuum: London/New York, 2004.
[2] Utilizando samples pré-gravados, programação em SuperCollider e um controlador MIDI. 

 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

NMEchá: chás sonoros, músicas aromáticas


Esta semana estreia minha nova peça acusmática espectro jasmim, nos concertos de lançamento do CD NMEchá, no qual serão estreadas oito obras acusmáticas de oito compositores sobre oito tipos de cha, compostas especialmente para este projeto.

Serão oportunidades únicas de escutar todas as obras difundidas em oito canais, enquanto se degusta o chá-tema de cada uma das obras.


Além do meu espectro jasmim, o programa compõe-se de peças de luis felipe labaki (lapsang souchong), adriano monteiro (chá de hibisco e anis estrelado), julia teles (miração; chá de coca), felipe merker castellani e manuel pessôa (espaços entre o sonoro ii, versão apenas sonora - sobre o chá preto), sérgio abdalla (O chá mais forte de Buenos Aires - sobre o chá assam), tiago de mello (dongsuh, ou um compositor em estafa) e fernando visockis (chacóvisqui - sobre o chá mate). Leia mais sobre os compositores e seus chás aqui.

Ambos os concertos serão gratuitos, sendo viabilizados através de financiamento coletivo do site catarse.

Campinas: 
23 de maio, quarta-feira, 12h30, no auditório da biblioteca central da UNICAMP

São Paulo (Capital): 
27 de maio, domingo, 15h e 17h, na associação cultural cecília, rua vitorino camilo, 449 (bem próximo à estação de metrô marechal deodoro)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

vigilia II no concertgebouw com o nieuw ensemble





Haveria espaço para a existência se o Universo fosse um tremolo de sucessivos Big Bangs? 

Quando recebi a encomenda desta peça para o Nieuw Ensemble, pensei em uma música que se comportasse como o envelope de ataque e ressonânica das cordas dedilhadas (violão, bandolim, harpa): uma quantidade imensa quantidade de energia liberada no momento inícial e seu decaimento inevitável. Depois que o som de uma corda dedilhada passa a existir, não há nada que se possa fazer por ele, além de resignar-se e contemplar sua extinção. Uma tentativa vã de prolongá-lo é atacá-lo outra e outra vez em uma obsessão inútil de reviver o momento inicial. Daí resulta um trêmulo persistente, que paradoxalmente produz a sensação de que o tempo congelou. Isso faz pensar se não é exatamente a insistência em começar de novo o que faz frear o fluxo da existência. Não é a crença no início de um novo tempo que irá nos salvar o que impede que emerja um futuro verdadeiramente novo?

A palavra vigília pode referir-se simplesmente à manutenção de um estado de consciência oposto ao sono, mas é usada também no sentido permanecer voluntariamente acordado por um longo período noite adentro. Diversas são as razões para assumir tal atitude: velar o corpo sem vida de um ente querido, uma cerimônia religiosa, o desejo de festejar a noite inteira ou simplesmente porque se tem um emprego no período noturno. Há sempre alguém em vigília, conduzindo sua consciência desperta através da escuridão. Mas se todos escolherem dormir, quem estará lá fora preparando a nova manhã que vem?
 
De qualquer maneira, nunca escrevi uma vigília I. Como vivemos em um mundo há muito apegado ao número 1, dar chance ao 2 de ocupar o primeiro lugar tem sua beleza.

vigília II foi encomendada pelo BAMDialogue e pelo Nieuw Ensemble, sendo estreada dia 22 de outubro de 2011 no Concertgebouw em Amsterdam e tocada novamente no dia seguinte em Haia, no Korzo Theater. Com Arie van Beek (regência), Margreet Niks (flauta), Ernest Rombout (oboe), Arjan Kappers (clarinete), Hans Wesseling (bandolim), Helenus de Rijke (violão), Godelieve Schrama (harpa), John Snijders (piano), Hermann Halewijn (percussão), Eeva Koskinen (violino), Frank Brakkee (viola), Maartje-Maria den Herder (cello), Rob Driksen (contrabaixo). Minha viagem para a Holanda teve apoio do Prince Claus Fund, que também publicou um texto sobre vigília II. Leia aqui.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

sketches for anamnese II com o arditti string quartet





A memória nunca é um ato inaugural. Sua existência depende sempre de um evento anterior. Mas, e se um fato completamente novo, que se acreditava nunca ter ocorrido, for trazido à existência pela memória que se tem dele?

Anamnese é "trazer de volta à memória". Trata-se do procedimento, introduzido na Medicina por Hipócrates, que consiste no relato dos fatos relacionados à doença que o paciente faz ao médico, fornecendo elementos para o diagnóstico.

sketches for anamnese II foi escrito para uma oficina com o Arditti String Quartet, que aconteceu durante o 42º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Esta gravação foi realizada dia 13 de julho de 2011, no Auditório Cláudio Santoro, como conclusão da oficina. Com Irvine Arditti, Ashot Sarkissjan (violinos), Ralf Ehlers (viola) e Lucas Fels (violoncelo).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

no ar, site do projeto ressonâncias


Entrou recentemente no ar o site do Projeto Ressonâncias, para o qual eu escrevi liederschaftlich para violino e piano. Esta peça foi gravada em uma interpretação muito especial de meu grande amigo Daniel Stein (violino) e da excelente Lídia Bazarian (piano).

No site, dá pra ouvir e baixar todas as faixas do CD, com direito a encarte e partitura de algumas das peças, inclusive a minha.